Meu primeiro dia do Professor como um Professor

Neste ano, após a conclusão de meu mestrado, decidi dar um tempo em outros planos e iniciar a vida na docência. Não que isso se trate de algo totalmente novo pois já ministrei treinamentos, palestras para centenas de pessoas e outras formas de transmissão/facilitação de conhecimento, mas nada que crie uma relação de troca tão intensa quanto a de assumir a responsabilidade pela formação acadêmica de alguém.

Se há algo em que acredito veemente é a transformação através de uma boa formação, tanto intelectual, como humana, pois ambos coexistem no mesmo “ecossistema”. Sem dúvidas fui uma pessoa de sorte, tive professores esplêndidos durante minha trajetória escolar e principalmente em minha trajetória acadêmica, como a oportunidade de conviver com pessoas que construíram a história da computação no Brasil e ouvir da boca dos próprios criadores de muitas das primeiras tecnologias por aqui desenvolvidas.

Uma das coisas que sempre me encantaram foi a maestria com que me foram passados todos os conhecimentos básicos de minha área, como sempre tinham um raciocínio muito bem estruturado de forma que pudesse absorver cada tema da forma mais embasada o possível.

Não tenho dúvidas que cada um destes que se atreveram a contribuir com minha formação intelectual foram grandes artistas, pois em mim foram capazes de aguçar o apetite pelo saber, não apenas por dominar técnicas e aplica-las, algo trivial, mas sim pelo não contentamento intelectual, por saber questionar e não se conformar com a primeira resposta óbvia, buscando sempre maior aprofundamento e questionamento na essência de cada tema estudado.

Acho que por conta destes grandes professores sempre penso que tenho uma tarefa importante, a de ser ao menos tão bom quanto foram para mim, é minha obrigação passar a diante o trabalho destas vidas dedicadas a formação de novos intelectos jamais nivelando nada por baixo.

Ser um educador, em minha visão, é uma tarefa de construção, de caminho a ser percorrido. Não acontece da noite para o dia, nem em meses, talvez em anos, pois somente dia após dia é que vamos nos conhecendo e nos moldando quanto a facilitadores de conhecimento.

Em uma de minhas aulas, após o término de uma prova, um de meus alunos quis ficar no laboratório utilizando os computadores e enquanto corrigia alguns exercícios começamos a conversar. Entre conselhos e dúvidas, me contou que não compreendia o funcionamento de chamadas recursivas e o retorno destas funções na execução de um programa (seja lá o que isso for). Decidi fazer uma rápida revisão, explicando o funcionamento destes retornos e relacionando o tema com os conhecimentos de outras disciplinas já cursadas, após algum tempo entre desenhos e explicações na lousa vejo um sorriso como se um “eureca” florescesse.

Nesse momento vi a felicidade brotar em seu rosto como a de quem conseguiu juntar peças de um grande quebra cabeça e ver a bela figura que fora criada pela junção de cada peça. Refletindo um pouco sobre esse ocorrido, percebi que não basta apenas darmos boas aulas e fazermos boas conexões, a construção do saber é um aglomerado de pequenos pedaços que nos sãos entregues e se não formos capazes de interliga-los ficaremos com espaços vazios entre eles, impossibilitando a conexão de temas correlatos como no caso deste aluno.

Este tipo de conexão que proporcionou o aprofundamento capaz de buscar na essência de outros conhecimentos a formulação de uma explicação ainda mais profunda em que pontos pudessem ser conectados para que a visualização da parte no todo fizesse sentido para aquele aluno em específico.

No momento em que vi a felicidade no rosto de quem compreendera algo por completo tive a sensação de missão cumprida, de que fui capaz de fazer a diferença para uma pessoa e que isso em algum momento em sua vida possa lhe trazer bons frutos devido ao amadurecimento de seu intelecto. Nesse momento também me alegrei, pois lembrei que em um passado não tão distante era eu no lugar daquele aluno, com minhas dúvidas e incompreensões, onde professores comprometidos com o desenvolvimento de seus alunos tiveram a preocupação de sana-las.

Nesse dia eu compreendi, por experiência própria, que ser professor vai além de transmitir e facilitar o conhecimento, indo muito além disso, ser professor é ter a capacidade de mudar vidas, de fazer com que as pessoas possam extrair o melhor de si e construir um futuro melhor para todos.

Obrigado a todos os professores que se dedicaram a minha formação e que puderam me ensinaram que educar vai além do aprender, nos dando a capacidade de uma das coisas mais importantes que um ser humano pode fazer, a de transformar.

Marvin Ferreira

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